A Alma Alexandrina

2016-10-19 11:02:39

Antes a biblioteca continha o livro, agora, o livro contém a biblioteca.
Gary.P.Radford

1.
Quando se pensa no futuro, sabe-se que a liberdade nunca está garantida, mas o espírito de libertação que a promove, esse pode ser fomentado, e a sua resistência testada antecipadamente. Foi o que aconteceu no passado dia 14 de Outubro, no Auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, aquando do Fórum 20 Anos da Rede de Bibliotecas Escolares. Quem lá esteve sabe que não há exagero se se disser que se tratou de um encontro extraordinário, pela presença massiva dos professores bibliotecários, a qualidade das intervenções, o agradecimento que foi feito a uma cadeia de figuras que estão na base da rede, sobretudo na homenagem à figura mais combativa de todas, aquela que alia o seu rosto a um dos impulsos mais criadores na educação de base da democracia portuguesa, a coordenadora Teresa Calçada.

Não cabe neste espaço a enumeração dos momentos altos de um fórum que teve de tudo, história, inteligência, análise, emoção, humor e alegria. O bibliotecário Rui Mateus falou em nome de todos. O seu momento honrou uma classe e demonstrou o que muitos sabem mas alguns negam ou pelo menos ignoram. Que os professores do Ensino Básico e Secundário constituem o grupo profissional de vanguarda que mais determina a fisionomia da cultura por vir e que o está a fazer com competência. Naquele dia, Manuela Pargana Silva bem pôde regressar descansada a casa. A Rede que dirige não só fez vinte anos como a sua maioridade está assegurada.

2.
Por isso mesmo convirá desfazer alguns equívocos. A certa altura, a jornalista Barbara Wong, moderando uma das mesas, reproduziu o pressuposto corrente de que actualmente vivemos o paradoxo de mantermos uma escola do século XIX, com professores do século XX e alunos do século XXI. Mas ela mesma ter-se-á apercebido que tudo quanto ali se estava a passar mostrava precisamente o contrário. Naquele local, ninguém parecia desactualizado. O que estava em causa, sim, era o debate sobre as várias faces de um tempo grávido das suas próprias contradições. O nosso tempo novo, aquele em que se hesita sobre suportes, linguagens, métodos, invenção, finalidades, sobrevivência e memória, tantos são os meios que a ciência e a tecnologia puseram à nossa porta.

Bastaria ter-se assistido à conferência de abertura, com o título de Libraries for Tomorrow, proferida por Ismail Serageldin, director da nova Biblioteca de Alexandria, para se confirmar isso mesmo. A sua comunicação, suportada por um power point profuso, dava conta de forma bem eficaz dos movimentos que nos conduzem a uma nova biblioteca, aquela que corresponde a um mundo de informação sem fronteiras, o mesmo é dizer, de velocidade, labilidade e conectividade infinitas. Uma biblioteca chocante para muitos, já que tende a não conter nem livros nem estantes, embora tenha de incluir pessoas e guias, e novos bibliotecários para que os utentes não se transformem em para-raios no meio de um espaço celeste, recebendo relâmpagos de informação de todos os lados, sem critério nem crivo. Na descrição desse ecossistema ilimitado, que todos conhecemos, o papel central da nova figura do bibliotecário foi acentuado. O símbolo da biblioteca como metáfora e centro de defesa de valores, também. Foi elucidativo ter sido relembrado o cordão humano feito em torno da Biblioteca Alexandrina, em Fevereiro de 2011, nos dias em que decorriam os acontecimentos na Praça Tahrir. Foi gratificante ver associados os lugares míticos da construção do conhecimento à vontade popular de se instaurar a pluralidade e a democracia, como se aquelas realidades não se pudessem mais desligar uma da outra. Tudo isso, excessivo e forte, dirigido tanto aos futuros cidadãos da Europa, como da América, de África e do Mundo Islâmico. Uma mensagem globalizadora. E, no entanto, é preciso dizer que a principal conferência do fórum pecou por defeito.

3.
Em outras ocasiões, o director da nova Biblioteca de Alexandria costuma acrescentar mais alguma coisa. Costuma invocar a palavra biblos. Costuma baixar o tom de voz, dizer que, para falar de livros, só vai usar palavras, não imagens, e nas suas costas, durante uma hora, grossas lombadas com letras gravadas permanecem imóveis. Nesses momentos, Ismail Serageldin surge como um leitor que ama os clássicos e a eles alia o grau mais alto dos saberes, e o caminho para a sabedoria.

Porque seria tão importante que Ismael Serageldin tivesse falado do encantamento da leitura, diante dos bibliotecários portugueses? Certamente não para lhes ensinar alguma coisa que eles já não saibam, mas para reforçar, nestes tempos de profusão, a convicção de que ler livros, isto é, ler objectos impressos ou electrónicos, relativamente longos, e lê-los da primeira à última página, continua a ser o grande suporte na construção da subjectividade humana. Lê-los, ajudados por imagens, e lê-los progressivamente sem imagens, à medida que a criança se vai transformando no adulto que em breve está para ser. Lê-los, ajudados por toda a informação que o mundo digital progressivamente permite, mas lê-los como suporte da nossa independência e capacidade de construir mundos alternativos para além daqueles que nos são propostos.

Costumava dizer-se, no início do século XX, que era necessário um homem ter tido uma grande educação para se manter em silêncio, dentro de uma sala, sozinho consigo próprio. Tratava-se de defender a capacidade de autonomia que a leitura de livros proporciona, num tempo em que as sociedades ocidentais eram movidas pela utopia de alfabetizar e instruir populações inteiras. A capacidade de elucubração, transfiguração, raciocínio abstracto, imagético concreto, a vida vivida várias vezes, pela leitura de livros, era uma meta da instrução e constituía um ideal. Mas o início do Século XXI legou-nos outras evidências. Como se o analfabetismo fosse um estádio anti-natural, aceitámos o império das imagens exteriores como se elas fizessem parte da natureza do nosso próprio corpo e organismo cerebral. Como se elas, produzidas por objectos que não somos nós, fôssemos nós próprios, e nós mesmos e elas fôssemos só um. Mas, na verdade, não o somos. Ao lado de todas as imagens de que dispomos, e elas não têm fim, porque em cada segundo a World Wide Web envia-as, numa profusão nunca antes imaginada, reproduzidas em biliões de écrans, existe a seu lado, sublinho, um outro écran, único, pessoal, inconfundível e irrepetível, o écran que se move dentro da nossa cabeça, e que só a cada um de nós pertence. Não poderia deixar de ser. O início do século XXI, perante um mundo escancarado à universalidade, tornou-nos cientes, por oposição, de que possuímos uma pantalha escondida, fora do alcance dos outros, uma pantalha gigantesca, e que educar consiste em fornecer elementos para que esse écran pessoal possa ser independente e mover-se por si próprio. E por isso, educar consiste em ajudar a alcançar a maior informação possível proveniente do grande exterior, e ao mesmo tempo tornar esse écran interior cada vez mais depurado e autónomo. De tal forma autónomo que se possa dizer que educado é todo aquele que se permite manter-se em silêncio no meio de uma sala, durante um par de horas, sem ajuda do mobiliário electrónico. Para tanto, para que seja alimentada a subjectividade, esse lugar inacessível onde batalham os valores, a razão, o sonho, o impulso de criatividade e a alegria, sabe-se que não se pode dispensar o livro, essa escultura feita de palavras que reproduz, como nenhum outro meio, o vaivém do pensamento. Isto é, o livro sobrevive, e mesmo que o ecossistema lhe seja hostil, ele continua a representar a metáfora do conhecimento e da sabedoria, por alguma razão de ser.

4.
As grandes contradições que estão em discussão não são, pois, partes do passado contra o futuro, e vice-versa. São confrontos entre visões diferentes que se conjugam no tempo presente, e que, na sua diversidade, desenham, de forma desigual, a biblioteca do futuro. Alguns de nós pensam que a biblioteca do futuro terá o formato da actual, com uma ou outra alteração de espaços e acessórios, e nessa conjectura privilegiam a contiguidade e a continuidade. Outros creem que ela dispensará o livro, pura e simplesmente. Chamar-se-á biblioteca por extensão etimológica, mas sem o biblos enquanto coisa física ou conceptual. Outros preveem que se preserve o livro impresso. Outros pensam que o livro impresso será apenas o livro literário. Que esse será o único a sobreviver como tal, e por isso ficará exposto e manuseado como uma relíquia, uma joia de família destinada a alguns que saberão virar as folhas e apreciar-lhes a gramagem. Quem defender a continuação deste livro, em folhas de papel, difundido em larga escala, poderá constituir uma seita. Entre a melancolia de uns e a euforia de outros, em que lugar se encontra cada um de nós?

5.
A pergunta é singela, mas não ociosa. Em torno de cada uma destas concepções, projecta-se um modo de ver o futuro próximo da Humanidade. Diz-nos o dever de humildade que ainda não sabemos como será. Mas existe um outro dever, o de dizermos em voz alta aquilo em que acreditamos. Ninguém nos atirará pedras se dissermos que, porventura, a nova biblioteca, pós-O Nome da Rosa e pós- Borges, a biblioteca pós-lógica, ainda será feita de alguns livros electrónicos armazenados em ipads, e alguns impressos, postos em prateleiras. Circunstâncias de suporte, circunstâncias passageiras. Como desde sempre, desde que a escrita se fixou em superfícies imprimíveis e superou a oralidade, o importante vai ser a acumulação de experiências de leitura que cada um construirá como sempre se construiu, a partir de um texto encantado, que uma vez achado se expandirá em espiral até aos limites comportáveis do conhecimento. O bibliotecário, diante do jovem, aturdido ou renitente perante os livros, cada vez mais afastados do seu horizonte, procurará ajudá-lo por si mesmo a encontrar a chave daopus mater que lhe iluminará a vida. E ao processo de expansão sem limites, construído em torno do livro, ajudado por uma conectividade nunca antes registada, chamar-se-á a nova biblioteca. Há, pois, quem defenda a ideia de que a alma alexandrina do futuro continuará a mostrar um rosto de pálpebras descidas, demoradamente, sobre uma superfície com letras que constitua um corpo, e entre ele e ela, a cada segundo que passa, nascerão novos mundos, para além do mundo conhecido, como sempre aconteceu. Subescrevo esse gesto.


Lídia Jorge
Lisboa, 18 de Outubro de 2016.

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