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Contrato Sentimental

2009-09-14 09:52:10

LIVROS

1.

No que respeita aos livros, melhor será os silvicultores plantarem muitas árvores e os bombeiros defenderem-nas do fogo, pois eles serão de papel. E assim, quando sobrevoarem grandes extensões de floresta, e pensarem que elas continuam a ser a garantia da sobrevivência da Terra, por favor, guardem no vosso olhar uma pequena reserva, descontem  aquela parte que a cada ano se abate, e a cada ano se replanta, tendo em conta a existência dos livros. Por algum motivo na nossa tradição a sobrevivência pessoal se associa à escrita de um livro e à plantação de uma árvore, e a esses dois actos se junta a concepção de um filho. No jogo do destrói/constrói, talvez não fosse errado assegurarmo-nos desse equilíbrio, para continuarmos,  depois do trabalho, a sentarmo-nos num sofá com Margarida e o Mestre entre as mãos, sem sentirmos remorsos nenhuns.

Sim, é sabido que em breve o e-book desempenhará a sua função de janela de leitura e, em termos de armazenamento, é bem possível que dentro de dias possamos andar com a Biblioteca de Oxford dentro da nossa pen-drive, e tanto as obras de Platão quanto as de Proust ficarão ao alcance de uma simples dedada. Os quarenta e cinco volumes da Enciclopédia Luso-Brasileira caberão na algibeira duma blusa de seda, e o disco onde ficam armazenados será mais leve do que uma moeda vulgar. Mas ainda assim, os livros ditos livros serão de papel, porque eles não se esgotam no seu formato imaterial, e o nosso corpo, por enquanto, ainda é matéria, e por acaso bem definida e bem limitada.

O livro vegetal funciona como um prolongamento do corpo, e em termos de objecto cumpre o que esperamos dum artefacto de cultura. Além de falar como gente em silêncio, como nem gente fala, o livro também é pintura e escultura. Uma escultura móvel e desdobrável, que a cada lauda oferece uma nova pintura carregada de voz. Em questão de formato, o seu tamanho comum é suficientemente impositivo para se fazer notar, e suficientemente comportável para se manter entre as mãos e levar-se sob o braço. Mas o mais importante de tudo é que ele oferece, na sua superfície longa e no entanto acomodável, a possibilidade da leitura em simultaneidade, nos vários espaços do seu fole. Folhear um livro, expressão admirável que significa passar de página em página - ao contrário do desfolhar, separar folhas, como por vezes se diz por engano – representa a capacidade plástica do ramo de árvore, que tem um tronco de apoio, uma lombada, e ao mesmo tempo permite que as folhas múltiplas balancem no ar. Nas suas margens, ainda por cima, existe um espaço em branco onde cada leitor é livre de acrescentar o que deseja – texto de apoio ou de contradição, impropério ou desenho - como memória da sua própria passagem por esse espaço que sendo tão finito, não acaba. Entre os livros, podemos guardar o que desejamos, objectos vários, marcas substanciais da nossa própria vida. No Sul de Portugal, há umas décadas atrás, era costume guardar  o cordão umbilical dos recém-nascidos dentro dum livro para que os meninos fossem letrados. Não me parece que a nossa cultura e até mesmo a nossa civilização, possam dispensar este sinal de comunicação tão intenso. Pois como poderemos renunciar a estas moradas feitas de folhas   entre as quais  os alfabetizados, até agora, passaram grande parte das suas vidas? Só uma parte daquilo que as  suas páginas de papel desencadeiam é possível acontecer diante do livro desmaterializado.

É verdade que, no que ao acto de  leitura se refere, o livro digital  se apresenta como um instrumento conceptual perfeito, mas apesar de ser cognitivamente intenso, ele  não inclui os predicados sensoriais próprios do livro tradicional. Ele é apenas um  objecto/ extensão  próprio do meio tecnológico,  que no conjunto,  à face da sua matéria corpórea, permite alargar infinitamente o universo dos objectos de leitura, ao associá-los em constelações hipertextuais por colateralidades sem limite. Mas, para além dessa riqueza resultante da acessibilidade múltipla, até agora o seu formato de janela  não acrescenta qualidade ao acto de ler.

Também é verdade que a iRex Tecnologies e a Logic Plastic anunciam para breve aparelhos para ler o livro electrónico, aproximando-o cada vez mais do formato natural do livro clássico. Parece que a e-ink permitirá colorir os ecrãs  como se fosse uma tinta, e os touch-screens  permitirão que toquemos com o dedo na superfície electrónica, imitando o folhear manual comum, e até uma caneta especial levar-nos-á a escrever, nesse espelho táctil, as notas que entendermos por bem. Não se pode dizer que nesta tentativa de adaptação  ao nosso modo orgânico, não exista a preocupação de preservar gestos que desde há muito consideramos essenciais. A procura da semelhança é intensa, quase dramática, e percebe-se que o limiar da aproximação possível não tardará a chegar. Mas no redemoinho que se avizinha, o livro comum, tal como o século XVI nos deixou por legado, não vai desaparecer, nem sequer vai desempenhar um simples papel residual, porque corresponde a uma aquisição de compleição integral, que se tornou  indispensável. Dito de outro modo, foi  o que Umberto Eco  defendeu, quando proferiu há uns anos atrás, uma conferência na Biblioteca de Alexandria. São suas as seguintes palavras   – “Os livros pertencem a essa classe de instrumentos que, uma vez inventados, não precisaram de ser aprimorados porque já estão suficientemente bons para serem usados para sempre, tal como o martelo, a faca, a colher ou a tesoura”. No mesmo sentido, ainda há dias, o britânico Philip Pullman defendia que as duas maiores invenções da Humanidade  continuam a ser a roda e o livro. Digamos que é raro o escritor que não se lhe refira como  um objecto demasiado próximo para ser substituído.   

Mas será que esta é apenas a percepção dos maníacos dos livros? E que a opinião dos crentes se limita a ser uma das variáveis, na grande contradição que opõe tradição a modernidade?  É bem possível que as pessoas envolvidas com os circuitos informáticos e os conteúdos atomizados, que prevêem o declínio irreparável do texto, considerem  estranhos fantasmas todos aqueles que defendem a continuação dos livros comuns, estes objectos que constituíram até agora a materialização mais completa da realidade textual. É possível. Só que talvez não valha a pena atiçar  uma luta de morte entre as duas formas. É preferível imaginar que os dois tipos de suporte irão coexistir pacificamente, lado a lado, na certeza de que a defesa da complementaridade dos meios acabará por funcionar como providência cautelar da nossa cultura. Neste campo, o futuro ainda não está decidido.

Nota - Este execerto corresponde às páginas 91-94 do livro Contrato Sentimental