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A Vida Dos Livros

2009-10-08 12:38:05

De 5 a 11 de Outubro de 2009.
“Contrato Sentimental” da autoria de Lídia Jorge (Sextante Editora, 2009) é um ensaio que nos surpreende, uma vez que, de um modo despretensioso, mas com uma pertinência indiscutível a autora se interroga sobre a sua relação com Portugal. “Muitos são aqueles que apresentam razões fortes para duvidar, mas eu tenho a certeza de que Portugal existe”. O início da reflexão põe-nos logo de sobreaviso. Trata-se mesmo de tentar perceber por que razão estamos ligados a este rincão, a estas pessoas, e por que motivo continua a funcionar este curiosíssimo “contrato sentimental”. Mas não podemos esquecer que há uma estranha relação de amor /ódio da nossa parte, neste lugar onde a terra acaba e o mar começa, essa mesma que levou alguém, algures numa fronteira do norte a escrever a palavra “lixo” por debaixo do indicativo de Portugal. Quem seria o despeitado? Apesar de tudo, importa tentar perceber. E esta colecção “Portugal Futuro” procura exactamente lançar pistas para esse entendimento. Por isso, vale a pena ler este ensaio.

QUE PORTUGAL? – Procurando olhar a bola de cristal, Lídia Jorge faz uma deambulação, propositadamente heterogénea, pelo País que somos. Com um fino sentido de humor, mas sempre com uma ironia inteligente, e nunca derrotista, a autora assume uma atitude aberta que, dir-se-ia, segue a preceito o conselho de Alexandre O’Neill e de António Alçada Baptista, não deixando que nos levemos a sério demais, e lançando desafios exigentes que obrigam a reflectir a fundo sobre quem somos e para onde vamos. Dir-se-ia que, longe de um patriotismo retrospectivo (severamente julgado por Eça de Queiroz), o que a escritora aqui nos traz é um saudável “patriotismo futurante” que se deseja aberto e cosmopolita, capaz de ter sentido crítico e de saber aliar vontade, determinação e desejo… “Se me perguntarem como idealizo a sociedade portuguesa dentro de vinte anos, e só dispuser de um minuto para responder, eu direi que num futuro próximo Portugal será mais educado, mais culto, mais cívico, mais crítico, mais próspero, mais miscigenado, que distribuirá melhor os rendimentos, terá mais solidariedade, terá mais justiça, e uma administração pública mais eficaz”. De facto, o que Lídia Jorge refere é o que idealiza. E, por muito pessimista que possa querer ser, o certo é que as últimas décadas têm apontado nesse sentido geral. Mas, o pior que nos poderia acontecer seria contentarmo-nos com essa idealização. Jorge de Sena não o deixaria. Se o fizéssemos trair-nos-íamos, porque somos insatisfeitos por definição, ou não vivêssemos entre o mar instável e a montanha impassível. Por isso, a escritora acrescenta: “Mas se em vez de apenas um minuto dispuser de dez, o tempo suficiente para uma breve demonstração, então eu acrescentarei que não será de admirar que a sociedade portuguesa, a par desses progressos, possa vir a ser mais violenta, mais egoísta, mais injusta, mais passiva, mais sedentária, ainda mais pobre e ainda mais burocrática”. Da idealização à demonstração chegamos à dura realidade. Mas não há contradição. Basta lembrar-nos, por exemplo, de António Barreto, para percebermos que o seu sentido crítico parte sempre da verificação de que fizemos um longo caminho positivo, mas que as nossas responsabilidades são agora cada vez maiores e o nosso sentido crítico tem de ser ainda mais apurado. A geração de 1870 passou à história como “vencida”, mas o pessimismo que cultivou foi sempre o do pensamento (como diria mais tarde Gramsci), por contraponto ao optimismo da acção, isto é, à necessidade de reagir corajosamente, recusando o fatalismo do atraso. Por exemplo, fale-se da Educação. Veja-se de onde partimos (um quarto da população analfabeta em 1974) e não se esqueça que, neste momento, a qualidade e a exigência das nossas escolas, dos nossos alunos e dos nossos professores têm de ser comparados com os países mais desenvolvidos. “Pela primeira vez, de forma veemente, se divulgou a ideia de que a Educação é uma tarefa global, da qual participam vários intervenientes, incluindo a família, a autarquia e o Estado, e pela primeira vez se tornou pública, se testemunhou e questionou, a relação até agora quase secreta entre professor e alunos”. Há, de facto, um longo caminho a percorrer, mas não há contradição entre o acreditar no futuro e o ser redobradamente crítico quanto àquilo que somos, que fazemos, que projectamos e que avaliamos.

UM CONJUNTO DE TEMAS E REFLEXÕES. – A identidade, a mobilidade, a autonomia, a comunicação, a imprensa, o livro, a língua, as cidades, a metrópole e os mitos constituem os pontos sucessivamente tratados, para tentar perceber que realidade colectiva somos, para além das simplificações ou de um pessimismo atávico, que oscila de modo ciclotímico entre o horror e o comprazimento, (“um movimento pendular entre o herói do mar e o lixo a que somos tão votados”) e que nos coloca sempre nas ruas da amargura, não por análise objectiva, mas por desejo de criar um bode expiatório que se responsabilize por todos os nossos males, próprios e herdados. E, no entanto, estamos a mudar profundamente, em contacto com os outros que chegam até nós e com os quais temos de saber lidar (como outrora, nos momentos mais significativos da nossa vida colectiva). “Na verdade, seria ridículo garantir, com base no passado, ou mesmo no presente, alguma coisa de seguro em relação à sobrevivência futura deste tipo de convivialidade amorosa entre os outros e o tuga, o tuga e os outros, sabendo que nós mesmos em breve seremos outros, e os outros também serão outros em contacto connosco, num mundo tão amplamente aberto, sobretudo quando os mitos de representação forem diferentes, e as relações de poder se alterarem, a ritmos que não podemos prever”. E Lídia Jorge diz, exigindo-nos fazer das tripas coração: “Diria que num futuro próximo não há processo de integração, só há processo de educação”… E se falo de dificuldades, digo que não é só a escola a estar em causa, mas sim a educação como fenómeno global e permanente – a Educação como fenómeno humanizador.

VAMOS AO CONCRETO… -   Muitas são as dúvidas e as perplexidades. Longe de certezas, contamos, sim, com dilemas. Olhe-se a comunicação e os efeitos da globalização. Como salvaguardaremos as diferenças, quando a produção cultural de língua portuguesa, ou mesmo europeia, sofre a avassaladora invasão dos meios globais? Iremos “reduzir o múltiplo à estreiteza do único”, como diz Kovadloff? Qual a capacidade da nossa sobrevivência como cultura singular? Quanto à comunicação, que cenários teremos no futuro: uma comunicação global, audiovisual, falada e escrita sobretudo em inglês, ou uma comunicação diferenciada, com protagonismo próprio e representação pessoal? E os livros, e a escrita, e o verbo? Será que a distopia do “Farenheit 451” se poderá realizar? Por mim, prefiro citar a autora, na afirmação que dá título ao ensaio: “Fiz o meu contrato sentimental com os livros que se parecem com as árvores, aqueles que são da sua matéria, leio cada um desses livros à vez, e cada folha é lida uma após outra…”. E chegamos à língua, no tempo do multilinguísmo (Steiner confessou um dia fazer amor em quatro línguas): será que iremos aproveitar a actual oportunidade única “para se organizar uma estratégia de recuperação importante, agora que os espaços digitais estão à disposição, e se adaptam perfeitamente à articulação deste património comum”? E, numa sociedade eminentemente urbana, consumista e homogeneizadora, “quando, entre nós, se fala de uma sociedade multicultural, e nos referimos à hipótese de virmos a ser uma população colorida, no sentido vital da expressão, estamos porventura a invocar o nosso mais fundo instinto de sobrevivência”. Mas poderemos preservar o que é próprio contra a onda predadora da harmonização e da despersonalização (como no caso algarvio que Lídia Jorge tão bem conhece)? Precisamos, sim, de “uma relação habitada com decência, respeitando o ambiente e a casa, uma atitude de preservação que não se confunda com um respeito museológico mas impeça as incursões criminosas e a devassa”. Deste modo, co esta simplicidade (como se diz na Convenção de Faro). “Europe’s West Coast”? Tiremos partido até de uma campanha passageira. “O fantasma de nós mesmos somos nós”. Compreenderemos a nossa costa (porto de partida e de chegada, segundo Eduardo Lourenço) como lugar de sobriedade e de iniciativa?