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Às Crianças

2007-11-05 17:33:19

Os homens roubam a Poesia às crianças e depois dizem-se poetas.
Claro que roubar é uma palavra com muitas setas e neste caso ela significa que cada um, em matéria de sonho, se alimenta, durante toda a vida, da criança que existe em si mesmo. Alimenta-se desse estado global próprio da inocência que precede a fala, ou que logo se lhe segue, mas de tal forma indistinto, que o mundo que une as crianças, ainda sem pátria nem fronteiras, funciona como um continente universal de acesso incontrolado. Deve ser, é essa a razão pela qual as narrativas que se dirigem às crianças, quando argutas, parecem acordar em cada um de nós um património que antes, muito antes de aqui chegarmos, já nos tinha sido franqueado sem o sabermos. E por isso uma bela história, contada às crianças, sempre nos põe de acordo quanto ao sentido da Humanidade.

Mas o que é uma bela história? – Uma bela história não se define, conta-se. Eu diria que as melhores histórias contadas às crianças são aquelas que respeitam a sabedoria das crianças. Na verdade, em sua ciência, elas crêem que o mundo não está separado dos seres humanos. Pelo contrário, pensam que o mundo se rege pelas regras do riso, da raiva, do choro e das gargalhadas como se fosse gente. Sendo as pessoas uma parte desse enorme ser humano, o qual, tal como as montanhas, os mares e os rios, no seu conjunto, chamam, choram e riem entre si, por semelhança e contiguidade. Esse é o princípio da Magia, mas é também a natureza da Poesia e da matéria narrada. Nenhum de nós é alheio a essa turbulência da vida inicial, onde acção e fala se entrelaçam como se fossem só um. Todo o conto, toda a narração, começa dessa forma, por uma imagem que se agita através da fala. Deve ser extraordinário passar a vida a escrever histórias para crianças.

Eu só escrevi uma, chama-se “O Grande Voo do Pardal”. Para escrevê-la, apenas me sentei numa cadeira à altura em que ficam os afilhados Joana e o Júnior, quando me abraçam, e comecei a pensar no pardal. No pardal duma perna só, que vivia na casa do Henrique Gaspar. E porque ele era um homem, mas sabia falar com o mundo e os animais, tal como as crianças, foi muito fácil escrever esse livro. Apenas deixei que o pássaro voltasse a entrar na janela do meu conto, e copiei o diálogo entre o bicho e o Henrique, que já cá não está. O resto aconteceu por si. Com as ilustrações da Inês Oliveira que vieram depois. Sem mais nada.